Eu estava “passeando” pelo Steam, procurando alguns exemplos de jogos em Realidade Virtual, quando, de repente, um nome me chamou a atenção: I Expect You To Die, o que significa “eu espero que você morra” em português. Fiquei mais curioso ainda quando vi o nome da empresa desenvolvedora do jogo, a Schell Games.

Jesse Schell, CEO da empresa, é autor de um dos livros mais vendidos de game design, chamado A Arte de Game Design, em que ele sugere uma série de lentes como metodologia para elaborar um bom jogo. Por essa visão, já adotei sua obra como referência em diversas aulas sobre o assunto.

Em I Expect You To Die, você assume o papel de um agente secreto estiloso que precisa se livrar das armadilhas fatais onde foi colocado. Para completar suas missões, deve resolver quebra-cabeças usando ferramentas e objetos disponíveis. Assim, o jogo segue uma linha escape the room, com uma pitada de humor e muita interação.

Já na abertura, notamos uma forte influência dos filmes de 007, com um lindo clipe que aproveita a liberdade da RV, mas sem perder o glamour e o surrealismo das introduções daqueles filmes. A arte é muito bonita e combina com o clima que querem passar. Além disso, não há a pretensão de alcançar um estilo realista, deixando o jogo leve de se jogar. O visual vintage também ajuda bastante no que diz respeito à beleza estética do jogo.

Os designers optaram por manter o jogador sempre sentado em uma cadeira, o que, particularmente, gosto muito, pois restringe algum tipo de movimento indesejado que poderia destruir a sensação de imersão naquele ambiente. Para facilitar o alcance de objetos mais distantes, o narrador informa que você foi aprimorado com a mais nova tecnologia: um chip de telecinese. Com isso, você consegue usar seu novo “poder” para pegar e manipular objetos em qualquer local do nível do jogo, mesmo que esteja fora do alcance de suas mãos. Foi uma saída interessante, mas confesso que tive certa dificuldade no começo para me acostumar com o controle. Depois peguei o jeito. A propósito, joguei em um Oculus Rift com Oculus Touch, mas parece que você pode jogar com o mouse, com o qual essa funcionalidade pode fazer grande diferença.

O tempo de jogo me agradou. Ele possui um tutorial inicial, quatro níveis originais e um DLC lançado mais recentemente. Cada nível, caso você já tenha solucionado o quebra-cabeça, pode ser completado em quatro ou cinco minutos; entretanto, como os desenvolvedores já esperavam, você morre o suficiente para passar mais de uma hora jogando. Isso também é possível porque o jogo é bastante confortável. Como você joga sentado e não há qualquer tipo de movimento de câmera que não seja controlado por você, é muito pouco provável que os jogadores venham a sentir qualquer tipo de tontura ou enjoo. Eu não senti nada.

Quanto ao equilíbrio, os puzzles não são triviais, mas fazem sentido, o que gostei muito. Em nenhum momento me senti “enganado” pelos designers com algo que não seria justo. Desde o primeiro nível, você é obrigado a raciocinar bastante para completar sua missão. Além disso, as soluções exploram muito bem as interações possíveis com a RV que não encontramos em outros tipos de jogos. É até interessante você observar quanto tempo leva para perceber que pode fazer mais do que simplesmente pegar e usar os objetos virtuais.

Por fim, quanto à diversão, achei o jogo muito divertido, bem elaborado e condizente com a Realidade Virtual. Infelizmente, como ocorre com a maioria dos puzzles, uma vez que você descobre a solução, dificilmente se sente estimulado a jogar de novo. A expectativa fica, então, pelo lançamento de mais DLCs, pois vale a pena conferir I Expect You To Die tanto como jogador quanto como game designer.

 

André Falcão é mestre em administração de empresas com foco em marketing e estratégia empresarial. Bacharel em informática e professor de graduação e pós-graduação em Game Design. É sócio diretor de tecnologia da AKOM Studios e responsável pelas soluções tecnológicas propostas pela empresa.